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quarta-feira, dezembro 28, 2011

A Análise: Black Mountain - "Wilderness Heart"

Uma das maiores reinvenções musicais do ano passado teve o carimbo dos canadianos Black Mountain. É impossível ouvir Wilderness Heart sem pensar "isto é velho, mas soa a novo". É certo que rock psicadélico está de volta aos ouvidos de muita gente neste novo século e que já ouvimos as mais variadas interpretações do género que os artistas têm feito. A dos Black Mountain não será a mais surpreendente, mas é a que mais se aproxima do conceito original e que consegue actualizar a sonoridade sem a modificar excessivamente.
Estamos aqui a falar em psicadelismo, mas os Black Mountain vão beber a muitas outras paragens. Ao longo de Wilderness Heart vamos ouvindo harmónicas características do música country, músicas aceleradas e riffs pesados (herança do heavy-metal) e até uma certa pitada de rock progressivo. Muitas já foram as bandas de rock que usaram e abusaram das harmonias vocais fora dos refrões, sendo talvez o maior exemplo o dos Alice In Chains. Nos Black Mountain quase todos os temas deste álbum são cantados em dueto, mas encontramos uma voz feminina. E ainda dizem que o rock é só para homens. O que é certo é que a inovação resulta bem em termos gerais.
Até agora parece que as minhas escolhas para melhores discos de 2010, apesar de algumas até serem bandas novas, constituem um qualquer revivalismo dos anos 60 e 70 e isto tem uma razão de ser: o funcionamento cíclico da industria musical reflecte-se também na criação musical. Daqui a bem pouco tempo estaremos a ouvir bandas de rock altamente influenciadas pelos anos 90.
André Beda

A Análise: Black Country Communion - "Black Country"

Querem uma razão para ouvir o álbum de estreia dos Black Country Communion? Eu dou-vos quatro: Glenn Hughes, Joe Bonamassa, Jason Bonham e Derek Sherinan. Eis uma forma cliché de começar uma crítica a um álbum de um super-grupo que, por obra do acaso ou não, até ficou bastante bom. Se não conhecem os senhores deveriam conhecer: Glenn Hughes, eternamente ligado aos Deep Purple, como baixista, e que aos 60 anos continua com um poder vocal enorme; Joe Bonamassa guitarrista de blues com 34 anos e que conta com uma carreira a solo iniciada em 2000; Jason Bonham, filho do baterista John Bonham (Led Zeppelin), condenado desde cedo a viver na sombra do pai, mas que ainda assim é um bom baterista; Derek Sheninan, teclista que tem no seu currículo bandas como Dream Theater e colaborações em álbuns de Alice Cooper e Billy Idol.
Apresentações concluídas, vamos ao que interessa: Black Country, o álbum. Com tanto talento junto, o que poderia correr mal? A verdade é que tudo podia correr mal, uma vez que a tradição nos diz que os super-grupos raramente dão certo. Falta de química talvez. Não estando a salvo de os Black Country Communion encerrarem actividades amanhã, não me parece que seja o caso. Na altura que escrevo estas linhas os Black Country Communion já lançaram o segundo álbum de originais e aproveito para adiantar que dificilmente seria uma melhor sequela deste Black Country. Estes tipos não estão a fazer um frete ao fazerem música juntos. Eles gostam do que fazem e gostam de o fazer juntos.
O resultado desta colaboração foi um disco de estreia de hard-rock há moda antiga, com o pé no acelerador e que ainda contempla orquestrações. Os momentos mais épicos do álbum são tomados pela voz de Joe Bonamassa e o facto de músicas serem cantadas em dueto ou à vez por ele e Hughes dá uma interessante dinâmica ao disco. Venham mais assim!
André Beda

A Análise: Brant Bjork - "Gods & Goddesses"

Brant Bjork, o homem, dispensa apresentações. De qualquer forma recordo que se trata do baterista da cena de Palm Desert fundador dos Kyuss e que também passou pelos Fu Manchu. A sua carreira a solo iniciada em 1999 é que necessitaria de uma maior introdução, pois nem eu a conhecia antes deste Gods & Goddesses - o tónico que precisava para me atirar de cabeça à discografia do homem.
Poderíamos falar aqui das mais óbvias referências que Bjork carrega desde que começou a fazer música e que podem ser escutadas em momentos como "The Future Rock (We Got It)". No entanto, vamos levar este texto para onde Brant Bjork levou Gods & Goddesses: o blues. Nele entramos numa calma viagem pelo mundo das influências mais primárias do músico. É assim que o disco começa, com "Dirty Bird", e é essa a sua base. Isto apesar de nele estarem contidas as guitarras musculadas e solos com efeitos de sempre.
Ao longo de God & Goddesses vamos escutando apontamentos que poderiam constar da obra de uns Velvet Undergroud, Thin Lizzy, Led Zeppelin ou Jimi Hendrix. Sim, pois as guitarras deste álbum vivem e respiram Hendrix. Eu sei, trata-se de uma bela mistura e de um bom exemplo de como é possível ir buscar influências ao passado sem que o resultado seja medíocre. Na verdade, no rock, pouco mais se pode fazer do que olhar para trás e reciclar.
André Beda

A Análise: Crippled Black Phoenix - "I, Vigilante"

Rock progressivo, onde andaste tu durante tantos anos? Certamente que foste vivendo no underground. Nos últimos anos o seu espírito ressurgiu naquilo a que muitos chamam de post-rock, o primeiro rótulo a que são sujeitos os Crippled Black Phoenix. No entanto, a atmosfera sonora de I, Vigilante até nos remete mais para o imaginário do início do rock progressivo. O álbum está recheado de toneladas de distorção, é certo, mas a introdução de instrumentos vai muito para além da guitarra, bateria e baixo tão característica das bandas de rock. Juntem a isso teclados, sintetizadores, banjos, guitarras dobro e saws e têm a receita para o som dos Crippled Black Phoenix.
Apesar do passado dos elementos da banda incluir passagens por Mogwai e Electric Wizzard, o colectivo britânico tem passado ao lado da crítica mundial. Nem seria justo que a banda estivesse num patamar mais elevado de reconhecimento somente pelo background dos seus músicos. I, Vigilante é uma obra que requer, por si só, uma maior atenção. Nele os Crippled Black Phoenix procuram encontrar os limites da sua criatividade, o que num grupo recheado de multi-instrumentistas talentosos só poderia resultar num enorme álbum.
I, Vigilante é, até agora, o canto de cisne de uma banda de rock progressivo britânica que não se envergonha dos pioneiros do género (como muitos se envergonharam) e faz-lhes neste trabalho a devida homenagem. Apesar de tudo isto, colocam os olhos no futuro e não se limitam a repetir o que já foi feito. Dêem uma oportunidade a esta banda e não vão querer outra coisa nos próximos dias.
André Beda

terça-feira, dezembro 27, 2011

A Análise: Blood Red Shoes - "Fire Like This"

Apesar de serem, por razões mais que óbvias, colados aquilo que hoje se chama de inde rock, sempre vi os Blood Red Shoes como um caldeirão que junta algumas das melhores coisas que se fizeram ao longo dos anos no rock. Se grande parte do material presente no álbum de estreia Box Of Secrets eram singles antigos regravados, Fire Like This é um álbum construído de raiz, a primeira obra do género dos Blood Red Shoes. O resultado está à vista e serve de confirmação a tudo o que prometeram no primeiro álbum.
No que toca a duos de rock, podemos sempre ficar com a sensação que falta algo na estrutura das músicas. O som dos Blood Red Shoes não sofre deste minimalismo excessivo, em grande parte devido ao seu som suficientemente musculado. A bateria energética e a guitarra grave compensam a falta de baixo nos temas mais agressivos ("Don't Ask" e "Light It Up") e nos momentos mais calmos nem damos pela falta dele ("When We Wake"). As despesas das vocalizações continuam a ser divididas entre Steven Ansell e Laura-Mary Carter, embora a menina da guitarra talvez ganhe um ligeiro protagonismo, no final de feitas as contas.
Apesar de conter no seu alinhamento momentos de maior acalmia que o seu antecessor, continuamos a notar que para uma banda com apenas dois membros, os Blood Red Shoes fazem muito barulho. Para isso contribuem de forma mais preponderante os dois primeiros temas do disco, que nos trazem de volta os Blood Red Shoes do passado, "Keeping It Close" e o piscar de olhos aos Sonic Youth de "Colours Fade". Sejam bem vindos ao presente do rock das ilhas de sua majestade.
André Beda

A Análise: Alter Bridge - "AB III"

Quando, em 2007, afirmei que Blackbird era um dos melhores discos de hard rock em muito tempo não faltou quem risse na minha cara. Esta afirmação veio a tornar-se numa das poucas coisas certas que disse aos 16/17 anos. Desde aí a banda foi capa de diversas revistas de rock e sobre guitarras, o solo de "Blackbird" (tocado a meias entre os guitarristas da banda) foi considerado o melhor de todos os tempos para a revista Guitarist e tornou-se numa das bandas com melhor reputação ao vivo. Myles Kennedy e Mark Tremonti até apareceram na capa da revista Total Guitar como salvadores dos riffs e solos.
Não querendo menorizar os outros membros, os Alter Bridge, em termos criativos, vivem praticamente à volta deste eixo Kennedy-Tremonti, dois guitarristas exímios que têm assente o som dos Alter Bridge na sua qualidade como músicos. Isto explica a diference abismal entre One Day Remains (2004), em que Kenndy apenas cantou, e Blackbird (2007), onde já tocou guitarra e escreveu os temas em conjunto com Tremonti.
Neste AB III, nota-se uma vontade de quebrar mais umas quantas barreiras: riffs atrevidos em "Isolation", "Still Remains" e "I Know It Hurts" e uma abordagem completamente nova no tema de abertura "Slip To The Void". Mas, claro, os Alter Bridge ainda não tiveram a coragem de fazer um disco sem uma balada ou um tema que lhes abra as portas ao air-play massivo, por isso temos "Ghost Of Days Gone By" a cumprir essa função. Aqui reside, possivelmente, o maior senão da banda: querer agradar ao público rockeiro, mas não só. Depois vão aparecendo temas muito fora do contexto do disco como "Wonderful Life".
Para terminar, reafirmo que AB III não é Blackbird, esse sim, o canto de cisne dos Alter Bridge, mas não deixa de ser um grande disco de rock. Daqui vão saltar, directamente para cima do palco, mais uns 7/8 temas.
André Beda

segunda-feira, dezembro 26, 2011

A Análise: The Drums - "The Drums"

The Cure, The Beach Boys, The Smiths, Joy Division, The Strokes, Franz Ferdinand e The Killers: serão provavelmente estas as referências certas para ilustrar a banda mais viciante e contagiosa de 2010.
Em 2009 já surgia o burburinho, "Let's Go Surfing" viciava qualquer pessoa que a ouvisse mal soavam aqueles assobios que nos fazem também assobiar nas seguintes horas. Depois, em 2010, chega-nos o álbum homónimo: uma miscelânea de êxitos instantâneos de fazer inveja a muitas carreiras estreantes na pop. Aqui com tons de rock, synth e post-punk. Descobrir um má música neste disco é que parece ser o desafio. Desde músicas empolgantes a mais enternecedoras, o nível do álbum mantém bastante alto a cada música.
O assalto aos anos 80 é evidente, no entanto os The Drums não deixam de absorver o que de melhor há na pop/rock de pastilha elástica sem esconder a sua veia indie, fazendo desde logo música actual e muito própria. Uma guitarra acutilante, um baixo contagiante, sintetizadores simplificados e uma voz desempoeirada: ingredientes para uns nova-iorquinos que sabem o que fazer para agradar massas. Considerados um dos mais prováveis hypes de 2010, parecem ter-se safado e continuam na senda de êxitos contagiosos. Este êxito, em 47 minutos, de 2010 já ninguém lhos tira.
Carlos Montês

A Análise: Broken Social Scene - "Forgiveness Rock Record"

O "disco rock de perdão" dos canadianos Broken Social Scene transformou-se n'«O» disco da banda. Nascidos em 1999, é ao quatro disco, em 2010 recorde-se, que o grupo assalta o mundo (com um número de membros que não dá para listar - 20 dizem). E quais as razões para tal: um disco com os singles certeiros "Forced To Love", "All To All", "World Sick" e "Texico Bitches". Para além disto há outro factor de nome Arcade Fire.
A banda, tal como os seus conterrâneos Arcade Fire, que dominam meio mundo indie, apresenta-se em palco com diversos instrumentos e muitas pessoas. No entanto a diferença reside na direcção; enquanto os Arcade Fire abordam mais a linha folk (e folclórica) do indie rock, apontando para a terra, os Broken Social Scene apontam a sua música para o espaço, em direcção à electrónica.
Forgiveness Rock Record vive essencialmente de pequenos grande prazeres: "Texico Bitches", "All To All", "Highway Slipper Jam", "Sentimental X's", "Sweetest Kill" e "Me And My Hand"; com espaço para experimentalismo: "Chase Scene" e "Ungrateful Little Father"; descarga rock com tons épicos: "Forced To Love", "Art House Director" e "Water In Hell"; e sabores a post-rock: "World Sick", "Mett Me In the Basement" e "Romance To The Grave". Tudo razões para afirmar que esta é uma das bandas por onde irá passar o novo indie desta década - se não for, andam lá perto.
Carlos Montês

A Análise: Superchunk - "Majesty Shredding"

Desconhecidos para a maioria, os Superchunk dão em 2010 um novo salto para a ribalta e para a visibilidade internacional. O disco que lhes dá acesso a esta porta é Majesty Shredding, com uma Pitchfork a fazer mais força do que outras entidades musicais. Resultado: uma re-proposta de boa música rock sempre em tons punk.
Vindos da Carolina do Norte (E.U.A.), a carreira dos Superchunk já data de 1989 (!), espante-se. Apologistas do "faz tu mesmo" (ou não cheirassem a punk por todos os lados), a banda fez um pequeno brilharete com o seu nono disco - espante-se novamente. Certo e sabido é que os Superchunk já são uma banda lendária no outro lado do oceano, no entanto cá para estes lados tão cedo ninguém se lembra de ouvir o seu nome. Um dos truques para tudo isto foi a espera: nove anos passaram desde o seu último longa-duração - Here's To Shutting Up de 2001.
Após um silêncio de nove anos, a banda juntou à expectativa em torno do novo disco o feito de ser um dos melhores do ano. E para além da saudade, a banda, em Majesty Shredding, continua a parecer mais uma banda acabada de sair da garagem do que uma banda com mais de 20 anos de carreira. Juventude e alegria no disco são coisas que não faltam: "My Gap Feels Weird", "Crossed Wires", "Learned To Surf" e "Rope Light"; mas juntar a estas peças adolescentes uma cola com mais de 20 anos de experiência só com os Superchunk: "Digging For Something", "Rosemarie", "Slow Drip", "Winter Games", "Hot Tubes" e "Everything At Once". Majesty Shredding é a prova que o punk não é só para putos e os Superchunk são os definitivamente os reis do [pop/power] punk. Confiança não lhes falta - como é óbvio - e eles já fazem isto há tempo suficiente para saberem como o fazer bem.
Carlos Montês

A Análise: Spoon - "Transference"

Do Texas (E.U.A.) saiu no ano passado o sétimo disco dos Spoon, uma das bandas do 'novo' indie rock que passeia na liga dos maiores há tempo suficiente para saber o que quer. Transference é o título deste disco que mostra uns Spoon mais sábios e cientes da fórmula que conquistou um público maior em Ga Ga Ga Ga Ga de 2007; daí tudo o que vem a seguir.
A banda começa este registo com o calmante "Before Destruction" - um corte com o imediatismo que os caracterizou antes -, depois percorre caminhos mais áridos com "Is Love Forever?" até à meio-sombria "The Mystery Zone" de riff pegadiço - que será a que melhor mostra de que é feito este álbum.
O disco é composto pelos diferentes estados do amor e uma sensação de afastamento ao mainstream que a banda parece sempre desejar. Querem ser indies e assim o são porque não querem as luzes focadas em sim próprios. No entanto a pop e o rock latentes neste disco da banda são suficientes para continuar a dizer que ainda são contagiantes. Fazem músicas de tom mainstream mas querem ser indies a todo o custo. Porém não precisavam do esforço porque já o são há mais de década e meia. O som dos Spoon há muito que é seu, no entanto não se deve confundir o seu próprio som só com o apresentado em Ga Ga Ga Ga Ga, pois quem procura a segunda parte do antecessor sai daqui desiludido.
Os Spoon continuam iguais a si próprios mas no entanto decidem aqui revelar a sua outra face pós-sucesso indie. Não é o lado b de Ga Ga Ga Ga Ga mas sim um lado mais introvertido, tão bom quanto a primeira que todos lhes conhecemos. As cordas, os pianos e as guitarras contagiantes continuam, só muda a atitude: a banda não quer ceder a jogos comerciais e dá-nos a 'comer' um prato caro mas só que menos conhecido. Não há hypes aqui, só música descomprometida, na essência de um indie rocker: "I Saw The Light", "Out Go The Light" ou "Nobody Gets Me But You". Só "Written In Reverse" e "Got Nuffin" é que irão satisfazer quem só queira viver do disco que os tornou famosos. E verdade seja dita, não queremos uns Spoon no mesmo trilho dos Kings Of Leon, onde gastam todo o seu talento em querer fazer dinheiro só porque um dia descobriram a porta certa. Bem-ditos sejam.
Carlos Montês

sexta-feira, dezembro 23, 2011

A Análise: Ted Leo And The Pharmacists - "The Brutalist Bricks"

Sexto na conta dos Ted Leo And The Pharmacists, The Brutalist Brick continua a fazer as delícias dos fãs da banda. Simples e eficaz, sem mudar a fórmula dos quase três acordes que sempre os caracterizou, este novo disco ouve-se com uma facilidade impressionante. Ted Leo e a sua banda transformam o punk rock numa coisa alegre, sem veias revolucionárias à vista, e trabalham-no como desde sempre o fazem: instintivamente.
A banda não muda a fórmula apenas a aperfeiçoa desde 1999 e aqui está o melhor disco da banda, fruto de seis álbuns. Música directa, alegre, sem floreados e com alguma vontade de dançar. São pegajosas e colam-se rapidamente ao ouvido. Quando o rock, o punk e o indie são assim não há nada a apontar. Riffs, solos, rock e felicidade, a ouvir aqui: "The Mighty Sparrow", "Mourning In America", "The Stick", "Bottled In Cork", "Where Was My Brain?" e "Tuberculoids Arrive In Hop".
Carlos Montês

A Análise: Titus Andronicus - "The Monitor"

Se a estreia The Airing Of Grievances de 2008 destes norte-americanos Titus Andronicus já fazia a delícia da imprensa musical, ao segundo disco a paixão por estes punk rockers, de espírito mais lo-fi do que revolucionários, aumenta ainda mais. Logo para começar esta 'nova' banda de punk tem um conceito no qual vageia pelo disco fora: a Guerra Civil norte-americana (1861-1865), que é meio caminho andando para a curiosidade de muitos. Depois pertence à vaga de bandas punk como Fucked Up ou Pissed Jeans que atrai mais a imprensa especializada e também a generalista, ao invés do punk melódico completamente teenager que faz as delícias da imprensa menos conceituada mundialmente, com certas aptidões para formatos cor-de-rosa e com público que se compreende, essencialmente, entre os 12 e os 18/20 anos.
The Monitor é totalmente aberto ao punk de 77 mas há algo de 'inovador' neste disco. Sendo um disco com tons conceptuais de uma banda de punk (!) os Titus Andronicus arriscam e em vez de despacharem a matéria que tem para dar, com músicas curtas, bem à maneira punk, colocam-se num precipício: abandonam o formato standard da canção punk e utilizam o formato canção progressiva com diversos andamentos e com temas que ultrapassam os cinco ou os sete minutos! O resultado deste possível suicídio punk é a aclamação. A banda dá ainda mais espaço ao punk e é ainda mais intensa (olhe-se para os Fucked Up para comprovar que funciona).
Carlos Montês

A Análise: Wavves - "King Of The Beach"

À terceira foi de vez. O excêntrico Nathan Williams, mais os seus dois compinchas Stephen Pope e Billy Hayes (sendo que este último já abandonou a formação), conseguem ao terceiro disco de originais dos californianos Wavves o seu pequeno lugar no mundo indie em 2010, bem como chegar aos ouvidos de um maior número de pessoas.
King Of The Beach é o sucessor de Wavvves de 2009 que faz uma média de um disco por ano, visto que a sua estreia, Wavves, data de 2008. Este novo disco do trio norte-americano abraça o noise rock com umas guitarras bem afiadas e de espírito surfista. As vibrações da Califórnia sentem-se na harmonia do disco mas a distorção aqui é a praia predilecta dos Wavves, ao contrário dos Beach Boys que se dedicavam mais à melodia e não tanto ao corpo da música. Para além destas referências a banda ainda chega a tocar no post-punk com um sentido experimentalista totalmente indie[pendent]. Mas não se desiludem - ouvintes de rock mais 'soft' - Nathan Williams não se esqueceu da canções pop que bem sabe fazer.
Depois de músicas como "King Of The Beach", "Super Soaker", "Post Acid", "Green Eyes" ou "Linus Spacehead", é caso para dizer que Nathan Williams teve o que merece: compositor por inteiro deste disco (e da obra dos Wavves), está aqui um dos novos senhores, opinion makers e coqueluches da indie de hoje. Atitude punk no indie não lhe falta e passa por aqui.
Carlos Montês

sábado, dezembro 10, 2011

A Análise: The Besnard Lakes - "The Besnard Lakes Are The Roaring Night"

À terceira tentativa os canadianos The Besnard Lakes continuam a mostrar que são uma das propostas mais deliciosas da actualidade. Embora sem muita repercussões no público, a imprensa cada vez mais se rende à banda canadiana. Uma banda que vive nos ambientes que andam sempre de mãos dadas: shoegaze, rock psicadélico, rock progressivo e um toque de post-rock.
Este disco começa logo com uma música dividida em duas partes, "Like The Ocean, Like The Innocent". Aqui a primeira parte ("The Ocean") é uma introdução de psicadelismo para um rasgar das guitarras na segunda parte, em mais de sete minutos ("The Innocent"). Segue-se "Chicago Train" que abraça alguma folk com violinos e tons épicos no início para desaguar no 'truque' do álbum - que vem a ser o formato habitual das canções do disco -, mais força rock distorcida e psicadélica no final. A tentativa de criar um canal sonoro intenso, de viagem para o ouvinte, é uma das forças do disco, que também vive e convive bem com as vozes femininas em combate com as masculinas.
"Albatross" é o centro do disco e a mais bem conseguida, com espaço ainda para alguns sintetizadores. As influências de My Bloody Valentine são óbvias, mas a banda adiciona a esse universo algo mais: torna-se mais calma, em tom de música ambiente quase. A orquestração que havia antes foi deixada de lado, os falsetes continuam para nossa alegria, e o formato banda torna-se evidente. De duo passaram para quarteto neste terceiro disco e querem-se tornar épicos. Tudo para ouvir calmamente em casa, num álbum envolvente e sedutor.
Carlos Montês

A Análise: The Brian Jonestown Massacre - "Who Killed Sgt. Pepper?"

Este é provavelmente um dos discos mais perturbadores, estranhos, bizarros, e outros adjectivos equivalentes a estes, que ouvi no ano passado. Who Killed Sgt. Pepper? é a minha primeira incursão pelo universo The Brian Jonestown Massacre; mal o acabei de ouvir assim fiquei rendido. Logo para começar este já o décimo segundo da discografia dos norte-americanos. Se pensarmos que a banda começa a carreira em 90, isto dá uma média de mais de um álbum por ano! Uma carreira que prima por criar música, e isso nota-se neste disco.
Olhemos então para o disco: de notar que isto não é uma banda de rock convencional. Certamente que para os lados da Europa este não será dos nomes mais sonantes do rock, mas isso também prende-se pelo facto da banda se aproximar a muitos géneros sem se chegar a colar a um só. Ora é rock psicadélico, ora é indie rock, ora é shoegaze, ora post-punk, ora é folk, ora é experimental, ora country... - uma confusão dos diabos. No entanto esta confusão é onde reside a beleza deste disco, nada formatado e cheio de camadas. Depois há ainda uma amalgama de instrumentos e sons electrónicos que criam essas camadas e mais camadas de peso sonoro que envolve todo o disco. A destacar há a utilização do islandês no disco.
A tentativa que chamar novamente ao mundo da música o 'proto-prog' Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles é óbvia - lê-se no título. A banda tenta colocar num disco só a música do mundo! O resultado é conseguido dentro da medida da banda e a consequência disso são músicas rock com vontade de libertação e com direcção para a pista - não na pista de dança normal, mas sim para as tribos e para o próprio mundo. Uma viagem alucinante e com uma paisagem sonora gigante. Para comprovar é só ouvir as distintas, dispersas e esquizofrénicas: "Tempo 116.7 (Reaching For Dangerous Levels Of Sobriety)", "Þungur Hnífur", "Lets Go Fucking Mental", "This Is The One Thing We Did Not Want To Have Happen", "The One" ou "Super Fucked". É normal que para um melómano isto seja um pequeno oásis por descobrir, mas para o ouvinte menos dedicado certamente que as sensações que este disco passam não lhe serão indiferentes.
Carlos Montês

A Análise: The Dead Weather - "Sea Of Cowards"

Ao segundo disco quase que desapareceram da cena central da música mas a imprensa continua aplaudir um dos projectos de Sir Jack White (ex-The White Stripes e The Raconteurs) que junta também, entre outros, Alison Mosshart (The Kills). Ainda nem um ano tinha passado sobre a estreia Horehound e 2010 já nos trazia Sea Of Cowards, álbum gravado em tempo recorde, como já é apanágio do universo de White. Algo inexplicável foi o desaparecimento quase espontâneo da maior parte dos seus ouvintes bem como dos destaques meritórios e que lhes deveriam ter feito, mas não vamos por aí. Na altura da eleição dos melhores discos de 2009 por parte da equipa do Ruído Alternativo os The Dead Weather marcaram presença com a sua estreia e agora voltam à nossa lista por razões lógicas e explicadas já a seguir. Na altura começava a minha análise com a seguinte frase: "Quem parta para este álbum à espera de um somatório dos vários projectos de que fazem parte os elementos desta banda, acertou", e o mote continua o mesmo, no entanto é de notar que a marca The Dead Weather já se faz notar.
Vamos por partes: a onda experimentalista, nunca antes vista em projectos de White e a introdução de mais funk, electrónica e até mesmo hip-hop faz-se notar mais ainda. Isto só tem uma explicação, o universo de Alison Mosshart dos The Kills é muito mais preponderante do que qualquer outro projecto em que White tenha colocado o dedo. No entanto não deixa de ser curioso a convergência de todas a ideias e das bandas a que estão colados cada um dos elementos neste disco, tal como na sua estreia. A marca The Dead Weather já entrou na adolescência e mostra agora, ao segundo disco, a sua própria identidade. Os pianos e sintetizadores ganham maiores proporções e experiências é o que não falta por aqui. Tudo isto num surpreendente álbum, despercebido por entre as massas.
Há quem apelide este disco de superior há estreia e entenda-se, por bem, que assim o é. Senão vejamos, o rock está mais agarrado a este disco do que ao de estreia, nada destoa e está tudo mais consolidado. A banda despiu-se de preconceitos e numa aparente jam session agarra-se às guitarras, à distorção, à sujidade e a tudo o que lhe é inerente: ambientes negros, instintos primários, elementos crus, à explosão, ao barulho e transforma tudo isso num álbum mais coeso, por impossível que seja. Tudo está escalado. Os órgãos sombrios como nunca e a abordagem é mais directa e concisa. Só "I Cut Like A Buffallo" do disco de estreia se aproxima do espírito imbuído neste disco - e se na estreia já era bom tudo fica ainda melhor ao segundo disco.
Não há se quer a tentativa de criação de belas melodias e harmonias, tudo é fruto da espontaneidade, "penso, logo toco" e ás vezes pensar nem parece ser preciso, basta tocar desenfreadamente. O vício deste disco é esse jogo básico em que a banda mergulha. Estes são uns The Dead Weather assustadores e incrivelmente sedutores. Finalmente demarcam-se de maior parte dos projectos inerentes à banda, pelo menos os de Jack White que tanto influenciam a música que este faz em diferentes grupos. Pelo meio há ainda uma luta e sedução entre Mosshart e White dentro da maior luta de todas que é procura de espaço por parte de cada um dos elementos do grupo, tudo saudavelmente audível com gemidos de prazer e gritaria que se farta - rock aos molhos. Isto sim é um super-grupo e um quase quase super-disco, todos assim o desejamos. Cobardes ao não estruturarem impecavelmente cada uma das canções? Não(!), corajosos!
Carlos Montês

A Análise: Neil Young - "Le Noise"

Le Noise: que melhor título poderíamos dar a um álbum em que a distorção e o ruído estão de volta ao universo de Neil Young? Tudo está explicado no título. O canadiano, com mais de 50 anos de carreira, voltou aos discos em 2010 com uma resposta rápida ao pouco certeiro Fork In The Road de 2009. Trigésimo terceiro na carreira e Neil Young parece não parar.
O sucesso foi muito superior ao antecessor e a aclamação não se fechou em copas aplaudindo a sua incursão pelo rock mais experimental, com a típica veia de Neil Young nalgum blues, no garage e na velha folk rock. No entanto reina o experimentalismo. As contradições e os ambientes explorados em outros discos mais recentes parecem continuar, mas a solidez neste disco falou mais alto. Um Young eléctrico, com baterias e baixos inexistentes, com ruído, ambientes psicadélicos e muito experimentalismo numas guitarras e violões. A calmaria apenas surge nas bonitas e bem interpretadas "Love And War" e "Peaceful Valley Boulevard", num tom mais confessional de Young de guitarra ao colo.
Neil Young consegue explodir pelo meio do álbum mas a procura de experiências com as suas guitarras, pedais e efeitos são maiores que tudo neste disco e daí resultam canções com corpo que ocupam todo o espaço envolvente. A abertura com "Walk With Me" é desde logo surpreendente para o menos aficionado com o espólio de Neil Young, uma guitarra cheia de efeitos, distorção e delay. Temos a voz hipnotizante e cheia de efeitos de "Sign Of Love" ou a esperançosa "Hitchhiker" e muitos coros samplados. A morte paira num disco também ele politizado. Ruidoso, distorcido, experimental, cativante e peculiar, é este o universo de Le Noise que afasta-nos por momentos do universo convencional de Neil Young mas que nos abraça aos poucos e poucos, à medida que o disco chega ao fim. Neil Young arrisca muito mas ganha ainda mais. Ele é maior que todo este álbum e mostra-nos toda a sua versatilidade ou não fosse ele uma lenda viva e um dos heróis do rock e da folk de sempre.
Carlos Montês

A Análise: Tom Petty And The Heartbreakers - "Mojo"

Para quem não vive só dos novos artistas, os saídos deste novo milénio, ou simplesmente de hypes, 2010 revelou-se um ano de regresso ao nosso baú de memórias. Tom Petty juntou-se, oito anos depois de The Last DJ, aos seus The Heartbreakers e assim voltou à boa forma, como à ribalta, com Mojo, o álbum que nos presenteou no ano que passou - e ele já tem 60 anos!
Décimo segundo álbum na discografia dos Tom Petty And The Heartbreakers este álbum está longe daquele rock pintando em tons de pop que a banda nos oferecera nos seus dourados anos 80. Puramente blues-rock e com a electricidade que baste, Mojo converte-nos. O regresso às origens é óbvio logo à primeira música, "Jefferson Jericho Blues". Os solos e riffs estão de volta à tona continuando também de mãos dadas com o espírito romântico de um dos maiores galãs da cena musical norte-americana do século passado. As baladas fazem-se ouvir por aqui: "First Flash Of Freedom", "The Trip To Pirate's Cove", "No Reason To Cry" ou "Lover's Touch", são alguns dos bons exemplos da primazia romântica de Petty e dos companheiros quando ao coração querem falar - experiência não falta. O jazz também vai invadido muitos dos ambientes do disco, com o piano e violão a postos ("Running Man's Bible", "Let Yourself Go" ou "High In The Morning", ora jazzy ora e bluesy) e até algum bom humor e esperança descem a Mojo ("U.S. 41" ou "Candy"). Muitos solos são de arrepiar e a versatilidade é abundante. De alma claramente rock temos as certeiras "I Should Have Known It" e "Takin' My Time", onde os Heartbreakers mostram a sua veia mais rock e mais suja mas com extraordinária confiança - o peso da idade também toca neste disco.
A narrativa de Petty é extremamente clara quanto à interpretação das letras diz respeito e a sensação de total lucidez em Mojo é evidente. As histórias são muito importantes neste disco não abafando a total nudez dos sons de cada instrumento, revistos ao pormenor sem que plástico possam parecer. Este é o disco de regresso à boa forma de Petty e dos Heartbreakers, que nos últimos tempos pareciam meio perdidos nas suas crises de meia ou maior idade. Um bonito presente a uma carreira consolidada lá para lados das Américas que nos deixa a sensação de dever cumprido. Independentemente do que possam ou não fazer daqui para a frente uma coisa é certa: Tom Petty And The Heartbreakers com Mojo ganham e 're-ganham' o respeito e o seu pequeno lugar na história do rock - mesmo que se trate de poucas linhas. Agradecimentos feitos.
Carlos Montês

A Análise: Drive-By Truckers - "The Big To-Do"

Isto é um disco puro. Tipicamente rockers, ou não fossem eles norte-americanos e não conduzissem camiões, os Drive-By Trukers continuam a produzir álbuns como se só disso dependessem para viver. The Big To-Do é a oitava investida nos longas-durações por parte da banda que já conta com quinze anos de carreira, e lá vamos nós ouvir o que de melhor sabem eles fazer: rock 'n' roll.
Se de reinvenções estamos à espera, saímos deste disco desiludidos. Mas se esperarmos daqui mais um grande disco de rock, saímos daqui cheios e satisfeitos. The Big To-Do é mais um álbum da marca DBT, vincada naquele rótulo de puro rock da América, onde vivem e respiram bem. Apesar de na sua carreira existirem álbuns muito mais importantes, como é o caso do anterior, Brighter Than Creation's Dark de 2008, não deixa de ser curiosa a ideia que os DBT desde sempre passam em cada álbum: realmente nunca fizeram um mau álbum. A banda respira rock, vive-o e com ele há-de morrer. Podem não ser a proposta mais apetecível e a mais sedutora no mundo da música mas não deixam de ser um lugar de boas recordações, de boa música e de passagem obrigatória quando estamos a falar de música rock sem máculas.
A raiva foi colocada de parte mas não deixamos de ter os impressionantes solos e reviravoltas características de uma boa banda de rock. Num bar, na praia, de carro, bêbado ou sóbrio, isto é música para qualquer pretexto. Um best of do que já fizeram espelhado em novos originais. Eles não estão parados no tempo - embora assim o pareça -, apenas vivem do sucesso e do que melhor sabem fazer. Eles passam o teste, eles são aquilo que são, eles estão descomprometidos e isso é o rock: efectividade no momento de pegar nas guitarras. A destacar "Daddy Learned To Fly", "The Wig He Made Her Wear", "Drag The Lake Charles", "This Fucking Job", "Get Downtown" ou "Santa Fe"; todos deviam começar por aqui: alguma política, algum romance, algumas histórias mais ou menos vitoriosas e rock para todos.
Southern rock, country rock... chamem-lhe o que quiserem - "it's only rock 'n' roll but I like it"!, este é o mote para mais um disco dos Drive By Truckers. É caso para se perguntar: alguém pediu rock 'n' roll?
Carlos Montês

sexta-feira, dezembro 09, 2011

A Análise: Field Music - "Field Music (Measure)"

Field Music (Measure) assim se dá a conhecer o terceiro disco de originais dos britânicos Field Music, que tiveram uma boa aceitação por parte da imprensa. Mais uma proposta de indie rock alternativo à procura de um tom mais clássico e épico - maior que eles próprios.
De notar desde logo que isto é um álbum duplo. Dois discos, com dez músicas cada, que mostram a fibra da banda. Muita música poderemos afirmar, mas este disco ouve-se com uma facilidade tal que em pouco tempo nos encantamos com a afronta que é apresentar vinte músicas num só trabalho. O disco está pensado ao pormenor: xilofones, violinos, pianos, coros, solos de arrepiar, letras cativantes - oiçam o registo mais umas duas vezes que começam a trautear duas ou três músicas -, e uma tentativa latente de serem superiores a si mesmos. Desejos de uma banda que passa despercebida nesta selvajaria que é o mundo da música.
Influências podem-se enumerar muitas, o reportório dos The Beatles [na sua fase mais experimental associada às drogas] será o mais completo para exemplificar a música dos Field Music, mas verdade é que a banda foge deste rótulo como de tantos outros que lhes possam impor. A consistência pode parecer difícil mas está lá, é ouvir Measure para confirmarem tal presságio - é que nem a divisão do álbum em dois se nota, tudo se pode ouvir continuamente sem que um lado b, no sentido negativo deste lado, surja. As escapatórias e os rumos das canções não são óbvias, até mesmo para o mais aficionado melómano - "Each Time Is A New Time", por exemplo. Há portas abertas aos Yes com aquela pop transbordante mas de peito aberto ao rock progressivo na sua veia mais experimental e os arranjos também não são para menos. Bowie será, certamente, também um dos artistas que os Field Music têm andado a ouvir a avaliar pelas cores 'camaleónicas' de Measure e pela linha onde vagueiam, onde nunca se perdem ou se quer chegam a parecer aborrecidos. O baú está cheio de referências e a procura incansável de uma identidade parece a luta neste disco, ou não apresentassem aqui dois discos num só.
Parte deste vazamento de tanta e boa música deve-se ao hiato da banda em 2007, que pelos visto só lhes fez bem. Para quem já os conhecia e tinha sede de música nova de certo que tiveram direito a uma boa refeição - musical, entenda-se - com direito a entradas e sobremesa; para quem ainda não os conhece aqui está uma boa proposta de reinvenções a tudo o que já conhecemos e ouvimos. A familiaridade do disco torna-se evidente depois de o ouvirmos várias vezes mas não deixa de ser inquietante a busca incessante do ouvinte por algo que realmente possa influenciar este disco. O prazer de Measure é esse mesmo, a busca de identidade por parter dos Field Music que se manifesta-se ao longo do disco. Um CD duplo muito diferenciado mas não disperso e fora dos parâmetros normais que um duplo CD nos oferece - em que mais música pode ser significado de altos e baixos -, é obra.
Carlos Montês