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terça-feira, novembro 30, 2010

A Análise: Slayer - "World Painted Blood"

Tantas vezes criticados por diversos motivos, pelo seu anti-clericalismo radical, por terem deixado para trás o thrash em algumas fases da sua carreira, os Slayer são, ainda assim, a banda dos intitulados The Big 4 que menos cedeu a pressões do mercado discográfico. Para eles os grammys e outros prémios não têm qualquer tipo de interesse: Tom Araya, Kerry King, Jeff Hanneman e Dave Lombardo nasceram para agradar ao seu público, especialmente ao vivo.
Apesar das críticas, algumas até bem legitimas, a verdade é que, depois daquilo a que se pode chamar a fase nu-metal da banda (álbum Diabolus In Musica, de 1998), os Slayer têm vindo a encontrar o seu rumo. Apesar não serem uma novidade em termos de sonoridade, God Hates Us All e Christ Illusion são álbuns de qualidade superior. Apesar da febre revivalista do thrash metal já durar há alguns anos, nenhum álbum dos Slayer tinha saído nas condições que World Painted Blood saíra: em pleno estado de euforia por parte dos seguidores do estilo, com o álbum do regresso à antiga sonoridade dos Metallica editado há um ano, Endgame dos Megadeth lançado cerca de um mês antes e uma série de figurantes de altíssima qualidade como Overkill, Exodus e Heathen também com novos álbuns para chegar. Infelizmente, dos álbuns que acabei de referir, só o dos Heathen me pareceu passar mais despercebido (por questões obviamente relacionadas com a dimensão da banda). Falhanço em termos de marketing?
Pode ser o caso, mas o Ruído Alternativo também serve para chamar a atenção para estes casos de aparente injustiça e, por isso, não receamos afirmar que World Painted Blood é um disco obrigatório na discografia de qualquer metaleiro que se prese. Este disco é composto por onze faixas, nenhuma delas extensa, algo que vai tomar cerca de 40 minutos da vossa vida. Este é precisamente um dos aspectos que eu mais aprecio na abordagem dos Slayer: ouvir um disco destes senhores é algo imediato, um experiência alucinante causada pelas músicas curtas e tocadas a uma velocidade estrondosa. Quando se chega ao fim de um [bom] álbum de Slayer só apetece perguntar "Já acabou?".
As músicas deste disco, e de outros, abrem ainda espaço a outra crítica que é constantemente feita: os Slayer andam a adaptar a mesma música diversas vezes ao longos da sua carreira. Até admito que isso aconteça pontualmente, é impossível ouvir "Playing With Dolls" e não pensar em "Seasons In The Abyss". São uma banda de metal com uma vertente muito inclinada para o hardcore, que, como qualquer outra vertente do punk, deixa pouco espaço a grandes inovações e variações sonóras.
Sim, são uma banda com pouca melodia, que nem sempre soa bem ao vivo e que tem um universo lírico pouco vasto. Estes factores fazem com que os Slayer sejam uma banda que se goste ou, por outro lado, se odeie. Para quem gosta aqui está mais uma excelente proposta: um álbum Slayer"!
[A Review 2009 está terminada. Em breve vai ser colocado o epílogo da mesma, fiquem atentos! Mais uma vez peço desculpa pela demora, afinal já andam aí listas dos melhores de 2010, mas nem sempre tenho o tempo que gostaria de ter para dedicar ao Ruído Alternativo. Abraço.]
André Beda

segunda-feira, novembro 29, 2010

A Análise: Vader - "Necropolis"

Eram até há bem pouco tempo «a banda que fez uma cover porreira dos Slayer», mas pouco a pouco os Vader têm vindo a ganhar o seu espaço na cena death metal mundial. Necropolis pode ser o sintoma de algo maior na carreira da banda polaca.
É por todos sabido que embora grande parte do death metal seja produzido no norte da Europa, este tem um potencial substancialmente maior para ser exportado para outras paragens do que estilos como o black metal. De qualquer das formas não foi nada fácil para os Vader levar a sua música para fora da Polónia, embora contem com uma carreira discográfica que já dura há mais de 17 anos. Em 2006, e quase por acaso, lançam Impressions In Blood no Japão com uma faixa bónus que não era nem mais nem menos do que "Raining Blood" dos Slayer. Daqui para a frente a carreira dos polacos deu um salto em termos de visibilidade.
Os membros da banda transformaram, então, o que poderia ser um facto desmotivante em algo positivo. Os Vader tinham vindo a produzir música de qualidade desde o seu inicio de carreira e, afinal, gravar uma música que nem sequer era da sua autoria e da qual já existem centenas de versões era quanto bastasse para que a imprensa e o público reparassem neles. Este Necropolis vem com mais duas versões: "Black Metal" dos Venom e "Fight Fire With Fire" dos Metallica, que, embora não tenham tido a reacção eufórica de "Raning Blood", são excelentes versões e sempre terão dado um empurrão ao disco em termos de vendas.
Quem conhece o Vader sabe que a formula não tem mudado muito ao longo do tempo. Eles apostam forte no death metal puro e duro, sendo uma das melhores propostas do género que podemos encontrar actualmente. Impression In Blood e Necropolis não são, de forma alguma, álbuns de afirmação qualitativa da banda, apenas conseguiram chegar a um público mais vasto que os seus antecessores.
A qualidade, essa sempre esteve presente, até nos registos mais iniciais da sua carreira. Necropolis ganha muito em relação a todos os outros registos dos Vader apenas num ponto: podemos verificar em neste disco uma maturidade e qualidade a nível instrumental assinalável. Capaz até de envergonhar alguns daqueles que são considerados grandes baixistas, bateristas e guitarristas a nível mundial. Não acreditam? Façam favor de o confirmar em músicas como "Anger" e "Devilizer".
André Beda

quinta-feira, agosto 05, 2010

A Análise: Obituary - "Darkest Day"

Nome maior do death metal nos anos 90, os Obituary regressam aos discos em 2009 com Darkest Day. Este é assim o terceiro álbum dos Obituary desde que se voltaram a juntar, depois de uma paragem que durou cerca de seis anos.
O death metal era visto, durante a década de 90, como a salvação das sonoridades mais pesadas de rock, pois (pondo de parte os Pantera) nenhuma das bandas históricas de heavy metal gozou nessa década da mesma popularidade que havia gozado nos anos 80. A verdade é que o mesmo viria a acontecer ao death metal nos anos 2000, altura em que perdeu força e notoriedade, enquanto outros géneros do metal como o thrash entravam numa onda revivalista que dura até aos dias de hoje. Os Obituary, como tantas outras bandas do género, separaram-se no final da década de 90 e voltaram a reunir-se já em pleno ano de 2003. A aceitação do público seria a mesma? Em termos práticos, e sem muitos rodeios, não. Mas este é um problema que deriva dos tempos e não acontece por culpa da banda.
Darkest Day não pode, de forma alguma, ser equiparado aos grandes clássicos da banda como Slowly We Rot e World Demise. No entanto este disco já pode ser considerado o melhor dos Obituary desde o seu regresso. A grande falha está apenas num ponto: Darkest Day não tem um grande hino. É certo que os tempos não o permitem, mas neste disco não há uma faixa com a grandeza de uma "Don't Care", "Slowly We Rot" ou mesmo "Evil Ways", esta última presente em Xecutioner's Return de 2007.
Pondo de parte essa mesma lacuna, este álbum nunca será um mau álbum. Tem agressividade, particularmente muita agressividade na faixa que abre o disco "List Of Dead" (provavelmente a melhor de todo o álbum), e até podemos encontrar alguma melodia (por vezes rara no death metal puro) em solos como o de "Blood To Give", naquilo que se pode considerar um bom trabalho por parte do elemento mais recente do grupo, Ralph Santolla. Nota ainda para o bom trabalho na bateria de Donald Tardy, uma vez que quase todos os temas começam a meio tempo e vão progressivamente acelerando, e, claro está, para o vocalista John Tardy que ao longo de tantos anos não perdeu nem um pouco do seu gutural agressivo.
Pode não ser um clássico intemporal, mas Darkst Day pode até ser visto como uma lição de como fazer bom death metal para bandas que estejam a dar os primeiros passos, bem como um exemplo para bandas consagradas do género que se têm deixado cair na banalidade. Keep on rocking Obituary!
André Beda

sexta-feira, julho 30, 2010

A Análise: Kreator - "Hordes Of Chaos"

Hordes Of Chaos marca o regresso aos álbuns por parte dos germânicos Kreator, quatro anos após o bem sucedido Enemy Of God. Este disco continua na linha do seu antecessor, embora com menos elementos de death metal melódico à mistura, e é mais uma prova, como se fossem precisas mais provas, de que há thrash metal para lá da Bay Area.
Muitas vezes considerados por público e crítica como os "Slayer europeus", semelhanças à parte, os Kreator merecem muito mais que este rótulo. Tal como bandas com Exodus e, já este ano, os regressados Heathen, os Kreator lutam por dar uma sonoridade mais moderna ao thrash metal, tentando fugir a revivalismos exagerados nos quais tanto muitas bandas históricas como novas caras do género tantas vezes caem.
Apesar do velho continente ser considerado o berço de muitos géneros musicais, no que toca particularmente ao rock e ao metal, o thrash metal sempre foi visto como um produto muito americano. Não obstante do facto do género ter nascido, efectivamente, nos Estados Unidos, bandas europeias do género como Sodom, Acid Drinkers, Destruction e os próprios Kreator caem muitas vezes no esquecimento.
Falando concretamente de Hordes Of Chaos, Mille Petrozza afirmou que este tinha sido gravado no formato "live tapping", com pouco trabalho de produção, algo que já não acontecia desde Pleasure To Kill de 1986. Apesar de toda a nova roupagem e do som mais moderno, a forma como o disco foi gravado acaba por revelar uma genuinidade assinalável em todas as suas músicas. Algo que não acontecia, sem sombra de dúvidas, na fase mais experimental da carreira dos Kreator quando, entre 1992 e 1999, tentaram introduzir elementos góticos e industriais no seu som. Algo relativamente recorrente em bandas com tantos anos de carreira. Afinal os Kreator andam na estrada à coisa de trinta anos.
Hordes Of Chaos é uma viagem de 38 minutos, mais fácil de digerir do inicialmente se possa pensar, isto apesar de em todo disco os Kreator não tirarem o pé do acelerador (não se deixem enganar pelo inicio melódico de "Amok Run"). Com muitos solos à mistura, alguns deles bem melódicos e quase todos bem pertinentes, há que destacar o trabalho do baterista Jürgen Reil, músico que esteve afastado da banda oriunda de Essen durante quatro anos, tendo voltado em 1997 para ajudar a trazer de volta a sonoridade mais agressiva dos Kreator.
Não sendo, de todo, mau experimentar novas sonoridades, este disco pode ser a prova de que é desta forma que os Kreator continuaram a agradar aos seus seguidores, principalmente aos mais puristas. Afinal Hordes Of Chaos chegou a entrar na tabela norte-americana de álbuns mais vendidos e por lá se manteve durante duas semanas, muito por causa do single "Hordes Of Chaos (A Necrologue For The Elite)" que esteve em alta rotação em alguns canais de música. O que não deixa de ser um facto apreciável para uma banda que não tem uma sonoridade propriamente acessível ao ponto de vender milhões e milhões de discos. Venham mais destes!
André Beda

quinta-feira, julho 22, 2010

A Análise: Sepultura - "A-Lex"

Uma das bandas que menos quer saber do sucesso que fazem no mundo, pelo menos segundo dão a entender, lançou no ano passado A-Lex. Os brasileiros Sepultura apostam claramente em elevar a fasquia e fazer música que não pode ser compreendida por qualquer um.
As experimentações continuam e, depois da obra-prima que foi Dante XXI, chega A-Lex, onde a experimentação chegou ao ponto de fazer uma versão para a nona sinfonia de Beethoven. Os Sepultura serão, certamente, a banda mais incompreendida do mundo, algo causado pela saída do carismático Max Cavalera, já lá vão 14 anos e agravado com a saída do seu irmão Igor logo após o lançamento de Dante XXI. Não é novidade que hoje é Andreas Kisser o grande líder da banda, e se em 1996 foi Max que quis sair, hoje a reunião dos membros que tornaram a banda famosa ainda não aconteceu por causa de Kisser. Empenhado em levar a sonoridade renovada dos Sepultura o mais longe possível, o guitarrista, para já, não abdica disso a troco de uma tournée saudosista feita por pessoas que notoriamente não ultrapassaram as suas antigas desavenças.
Falando dos Sepultura de hoje, as novidades em A-Lex começam na bateria onde pela primeira vez não temos Igor Cavalera mas sim Jean Dollabella naquilo que se pode descrever como uma agradável surpresa. Fazer esquecer Igor não era fácil e a escolha de um baterista que pouco teria a ver com o tipo de percussão que os Sepultura necessitam, não convenceu os seguidores do grupo de Minas Gerais. A verdade é que Dollabella se tem mostrado impressionante ao vivo e A-Lex saiu com linhas de bateria bem complexas e merecidas de serem escutadas com atenção.
Depois das boas críticas recebidas por Dante XXI, descrito pelos críticos como o melhor álbum dos Sepultura da "Era Derrick Green" - embora eu entenda que esta classificação é modesta, pois se este álbum fosse gravado por Max em vez do Predator, seria imediatamente considerado um dos melhores discos lançados por eles -, não se avizinhava nada fácil a tarefa de fazer melhor. Bom, bem vistas as coisas A-Lex está uns furos abaixo na escala qualitativa em relação ao seu antecessor, mas é muito mais plural em termos de sonoridades. Se Dante XXI poderia ser considerado um álbum de groove metal sinfónico, em A-Lex encontramos groove, death, punk hardcore, thrash, música clássica e até os ritmos e coros tribais rebuscados dos tempos de Roots, mas desta vez bem introduzidos na música "Filthy Rot", diga-se de passagem.
Falando em termos de vocalizações pouco há a dizer, pois já conhecíamos o poderio de voz de Derrick Green de outros trabalhos. Se é algo que ninguém nega é que o homem tem um vozeirão que, por vezes, até assusta. Paulo Xisto é hoje uma peça muito mais importante na banda do que era antes de 1996, pois o baixo tem vindo a ganhar uma importância crescente, de disco para disco, na música dos Sepultura. Andreas Kisser deixou de parecer um seguidor de Kerry King e passou a parecer aluno de Jimi Hendrix tal a complexidade de alguns arranjos de guitarra que acompanham músicas como "The Treatment" e "Ludwig Van". Ainda assim continua a haver espaço para riffs secos e agressivos como em "What I Do!", durante a viagem pelo disco baseado na obra de Anthony Burgess de seu nome Laranja Mecânica.
Talvez daqui a alguns anos estes Sepultura tenham um nível de reconhecimento diferente, tal como os Black Sabbath que era ignorados na década de 80 e hoje são considerados por muitos a banda mais importante de sempre do rock. Para já a banda parece querer tocar até que as pessoas os vejam com os olhos com que viram noutros tempos. Vamos ver se a persistência resiste ao facilitismo de reunir a formação clássica...
André Beda

quarta-feira, julho 21, 2010

A Análise: Megadeth - "Endgame"

Endgame marca o regresso aos discos por parte dos Megadeth, apenas dois anos após a estreia do seu antecessor United Abominations. Este disco marca também uma nova fase na carreira dos Megadeth, com os primeiros riffs e solos de Chris Broderick no grupo a fazerem-se ouvir em Endgame, e também com a entrada do baixista de longa data da banda, David Ellefson, que esteve afastado desde 2002.
É impossível falar deste álbum sem fazer uma referência ao ambiente que se vive hoje em dia no seio dos Megadeth. Se a formação da banda já era fortíssima, com a entrada do talento de Broderick só tem a ganhar e o próprio Ellefson veio trazer alguma da mística de volta aos Megadeth, visto que é um elemento histórico da banda. Depois há o elemento Dave Mustaine, o motor de sempre do grupo californiano, que se tornou cristão ao fim de tantos anos (e até parece que levou David Ellefson consigo à missa, uma vez que o baixista também se afirma cristão). Mustaine deve estar tão arrependido dos seus pecados que até já fala com todas as pessoas com quem estava, digamos, "chateado". E reparem bem que a lista não é nada pequena: James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett, David Ellefson, Chris Poland, Rikki Rachtman, Kerry King, Tom Araya, os Pantera e Mike Muir.
Poderia-se pensar que esta aparente paz que reina no mundo dos Megadeth poderia trazer um disco com temas diferentes dos que encontramos em United Abominations, algo que mostrasse mais esperança, mas os Megadeth enganaram-nos bem. Os temas centrais de Engame continuam a ser guerra e músicas de protesto servidas por um enredo com riffs e solos alucinantes. A este nível há que referir que o talento de Broderick veio colmatar aquilo que sempre faltou a Mustaine: melodia. Dave é um autentico talento em bruto: muito rápido mas nada melódico. De resto, nem se nota que hoje o líder dos Megadeth é um respeitável cristão, tal a agressividade demonstrada ao longo do disco.
Depois de tentativas falhadas, no final dos anos 90, de tentar suavizar a música dos Megadeth com elementos electrónicos à mistura, o grupo encontrou definitivamente o seu estilo: muitos solos, linhas de baixo e de bateria bastante simples, álbuns com músicas rapidíssimas, com uma ou outra mais introspectiva, interpretadas pela voz de Dave Mustaine, que em estúdio ainda não nos deixou ficar mal.
É importante também referir que alguns podem afirmar que as músicas de Endgame são, por norma, mais rápidas que as de United Abominations, o que não andará muito longe da verdade, pondo de parte as mais introspectivas "44 Minutes" e "How The Story Ends". Algo que poderá contribuir para a popularidade do disco é o facto de este ser apresentado por singles muitos bons e com algum potencial, pelo menos, televisivo: "Head Crusher" e "The Right To Go Insane", algo que faltava gritantemente em discos como The System Has Failed e United Abominations. Em suma: não é o melhor que os Megadeth já fizeram, mas não é por isso que deixa de ser um dos melhores lançamentos do ano passado.
André Beda

quarta-feira, maio 12, 2010

A Análise: Lamb Of God - "Wrath"

No ano passado muitos portugueses tiveram oportunidade de ouvir falar nos Lamb Of God pela primeira vez, muito por causa no concerto que estava anunciado no Alive!09. Alguns tiveram, como eu, oportunidade de ver a banda actuar ao vivo, naquilo que se pode dizer que foi, no mínimo, um concerto bastante enérgico (principalmente por parte de Randy Blythe, vocalista da banda).
Os Lamb Of God são uma das principais bandas do movimento a que se convencionou chamar New Wave Of American Heavy Metal e eram conhecidos por ser uma banda de metalcore. A banda tem-se conseguido afastar, até certo ponto, desse rótulo. Na verdade até ao ponto dos Lamb Of God estarem a ser apelidados de "os novos Pantera", algo que terá mais a ver com as enérgicas actuações ao vivo da banda do que propriamente com a música. Quando a banda de Richmond actuou no Alive! já tinha visto o seu novo álbum ser editado, Wrath, que não poderia ter saído num ano melhor: o ano em que os Lamb Of God andavam em tour com os Metallica, o que lhes deu uma projecção que nunca antes tinham tido.
Se Sacrement, de 2006, tinha o mérito de ter posto no mercado dois dos maiores sucessos da carreira dos Lamb Of God - "Walk With Me In Hell" e "Redneck" - Wrath tem o mérito, não só de conter um single de algum sucesso ("Set To Fail"), mas sobretudo de ser um lançamento mais consistente que os seus antecessores. Em nenhum outro trabalho a banda tinha composto riffs desta qualidade (não deve ser fácil ter dois «solistas» puros na banda como são Mark Morton e Willie Adler), que aliados à sempre impressionante às primeiras audições bateria de Cris Adler e à voz poderosa de Randy fazem deste o melhor disco dos Lamb Of God, até à data. Sem rodeios: Wrath é mesmo o melhor.
Os Lamb Of God são hoje uma banda que pode tocar em qualquer festival do mundo, embora ainda não seja um grande nome no universo metaleiro, com mérito próprio. Acredito que com Wrath a banda tenha percebido qual o caminho a seguir e agora resta-nos esperar para ver como vai ser o próximo álbum, deixando sempre espaço para experimentações que a banda possa querer realizar, depois do contacto com diferentes culturas enquanto andaram em tour. Em breve vamos poder ouvir a música"Hit The Wall", que poderá ser uma amostra daquilo que se seguirá a Wrath.
André Beda

terça-feira, maio 11, 2010

A Análise: DevilDriver - "Pray For Villains"

Saiu para as lojas, em Julho do ano passado, o quarto álbum da carreira dos DevilDriver, banda norte-americana liderada por Dez Fafara, o homem que se tivesse tido a infelicidade de morrer aos 27 anos de idade, seria considerado um mártir do mal-amado nu-metal.
Num ponto não podemos tirar mérito a Dez Fafara: o homem sempre andou uns anos à frente do seu tempo. Se foi o líder e grande mente dos Coal Chamber (uma das bandas consideradas fundadoras do nu-metal, muito antes de aparecerem os campeões de vendas Limp Bizkit, Linkin Park ou Papa Roach), agora nos DevilDriver insiste em fazer música debaixo de uma perigosa mistura entre death-metal e groove-metal, fugindo ao tipo de metal que está em voga no seu país de origem: o metalcore. Este afastamento não acontece ao acaso - a ideia será, certamente, entrar no mercado europeu. Algo que parece estar a ser conseguido, tendo em conta o número de festivais de Verão europeus nos quais a banda tem vindo a actuar ao longo dos anos.
Os DevilDriver terão afastado muitos fãs dos velhinhos Coal Chamber ao primeiro álbum, tendo em conta a diferença em termos de peso do som das duas bandas. Se este Pray For Villains tivesse sido lançado em 2003 (em vez do disco homónimo DevilDriver), teria provocado ainda mais choque nos fãs da antiga banda de Dez Fafara, tal foi a evolução da banda em termos técnicos em pouco mais de seis anos. Esta banda não é a mesma que havia lançado o seu álbum de estreia em 2003 e essa maturidade é algo notório neste Pray For Villains.
Apesar de terem um som bem mais pesado do que no início, aqui e ali vão aparecendo momentos com guitarras acústicas e fases mais calmas entre o caos em que a música se parece ter transformado. Outra nota de destaque é que os DevilDriver vão introduzindo mais solos de guitarra de disco para disco. Apesar disso, nos DevilDriver não se «sola» "porque sim". Os solos vão aparecendo ocasionalmente nos momentos apropriados (e existem até alguns bastante bons, como o da música "Back With A Vengence").
Com um death-metal melódico "apanterado" acompanhado pela potente voz do seu carismático vocalista os DevilDriver continuam a sua busca por mais popularidade e de um cantinho na história do metal e, embora não seja uma tarefa fácil logo à partida, deram mais um passo com este Pray For Villains. Apesar de musicalmente até serem bastante melhores, Dez Fafara (um dos primeiros seres-humanos a fartar-se do nu-metal, apesar de ter ajudado a fundar o género) sabe que é provável que os DevilDriver nunca cheguem a gozar da popularidade que um dia os Coal Chamber gozaram.
André Beda

terça-feira, abril 06, 2010

A Análise: Heaven & Hell - "The Devil You Know"

Super-grupo. Nunca a expressão fez transpirar tanto os rockeiros do mundo inteiro como agora, não ficasse 2009 marcado pelas estreias dos Them Croocked Vultures e dos Heaven & Hell. The Devil You Know é o registo de estreia da banda que com estes mesmo elementos já se chamou Black Sabbath no passado.
A história deste grupo começa no momento em que Ozzy Osbourne é despedido dos Black Sabbath. O seu substituto seria Ronnie James Dio, um talentoso vocalista acabado de chegar dos Rainbow do ex-Deep Purple Richie Blackmore. Um ano após a entrada de Dio, o baterista Vinnie Appice junta-se aos Black Sabbath, em 1981, e essa seria a peça que faltava para a formação do Heaven & Hell. A questão é óbvia: se se juntaram em 1981 como Black Sabbath, por que raio quase 30 anos depois se juntam de novo e gravam um disco. Simplesmente Tony Iommi e companhia tiveram uma vida demasiado preenchida a tentar salvar os Sabbath da extinção após a saída de Ronnie.
A verdade é que depois de alguns concertos a tocar músicas da Era Dio dos Black Sabbath, Tony Iommi, Ronnie James Dio, Vinny Appice e Geezer Butler lançaram o seu disco de estreia como Heaven & Hell no ano passado. Mais uma vez a questão impõe-se: valeu a pena estes velhotes terem-se juntado para fazer uns trocos ao fim de tantos anos? A resposta tem de ser: se fosse para fazer dinheiro nesta altura os Sabbath estariam em digressão com Ozzy Osbourne. A verdade é que não estão, embora seja esse o sonho de muitos rockeiros pelo mundo fora.
Temos que dar o devido mérito aos Heaven & Hell: tirando Appice que tem 50 anos, todos os elementos da banda são sexagenários: Dio com 67, Iommi com 62 e Butler com 60. Apesar de estar à porta dos 70, nem um cancro conseguiu parar o antigo vocalista dos Rainbow, que certamente conseguirá impressionar quem ouça The Devil You Know pela primeira vez. Arrisco até a dizer que Iommi gravou neste disco alguns dos riffs mais pesados de toda a sua carreira. Músicas como o single "Bibble Black", "Fear", "Double The Pain", "Eating The Cannibals" e "Follow The Tears" fazem deste disco uma autêntica pérola na história do heavy metal mais tradicional.
A verdade é esta: o título de super-grupo assenta que nem uma luva aos Heaven & Hell. Se estes discos têm tendência para nos desiludir, com The Devil You Know aconteceu precisamente o contrário: apanhou todos de surpresa. Dio provou que é um vocalista sem fim à vista, Iommi e Butler provaram que ainda não estavam mortos para a música, embora tivessem de sair dos Sabbath (que já só acordam quando Ozzy está em cima do palco com eles) para o fazer e Appice provou que poderia tocar bateria em qualquer banda. Venha o próximo.
André Beda

segunda-feira, abril 05, 2010

A Análise: Paradise Lost - "Faith Divides Us - Death Unites Us"

2009 marca também o regresso aos discos por parte dos britânicos Paradise Lost. A banda pioneira no movimento metal gótico lançou para o mercado Faith Divides Us- Death Unites Us, um disco com um título que, desde logo, nos deixa a pensar.
Os Paradise Lost foram ganhando o estatuto de uma das mais importantes bandas do movimento death/doom ao longo dos primeiros anos de carreira, graças a discos como Gothic (1991), Icon (1993) ou Draconian Times (1995). Apesar do estatuto adquirido a banda decidiu apontar a sua sonoridade para outros caminhos, tal como fizeram outras bandas do género, com os Anathema à cabeça. Escusado será dizer que ao seguirem o rumo de uma synth-pop à la Depeche Mode, os Paradise Lost perderam inúmeros fãs, inconformados com uma súbita mudança de direcção feita pela banda. Conscientes disso, os Paradise Lost decidiram voltar às antigas sonoridades no álbum Believe In Nothing, em 2001. Este disco acabaria por ser a maior nódoa na carreira da banda inglesa [apesar do sucesso feito por "Mouth"] uma vez que, apesar de ter mais guitarras em detrimento do som dos sintetizadores, um problema na mistura do disco fez com que o regresso a sonoridades mais pesadas fosse adiado.
Believe In Nothing continua a ser hoje um assunto muito pouco falado pelos elementos da banda, mas a seguir a este disco viria a melhor fase da carreira dos Paradise Lost. Fase essa que durou, pelo menos, até a edição deste Faith Divides Us - Death Unites Us, um álbum que vem na linha dos seus antecessores lançados após o ano de 2002. A verdade é esta: a fase synth-pop dos Paradise Lost, goste-se ou não, fez bem à banda, que voltou à sonoridade original sem quaisquer problemas em introduzir pianos, violinos e até os mal-amados sintetizadores em músicas bastante pesadas. A fase menos consensual do Paradise Lost simplesmente fez a banda crescer em termos sonoros e também Nick Holmes que se tornou num vocalista bastante versátil.
Faith Divides Us - Death Unites Us vem, mais uma vez, provar que uma das bandas mais importantes no desenvolvimento dos subgéneros do heavy metal ainda não morreu e ainda para mais conseguiu reerguer-se, como poucas conseguiram, após uma fase em que perderam quase toda a sua base de fãs. Músicas fantásticas como "Faith Divides Us - Death Unites Us", "I Remain", "Living With Scars" e "First Light" fazem-nos ansiar pelo regresso dos Paradise Lost aos discos.
André Beda

quinta-feira, março 11, 2010

A Análise: Candlemass - "Death Magic Doom"

Muitos anos, mudanças de formação e paragens depois os Candlemass chegam a 2009. Se é verdade que longe estão os tempos de Epicus Doomicus Metallicus, também é verdade que ainda há alguma possibilidade de os Candlemass voltarem a ser os porta-estandartes do doom metal. A prova disso é, sem sombra de dúvidas, o mais recente da banda Death Magic Doom.
Não fossem as diversas mudanças de formação ao longo dos anos e os Candlemass teriam evitado os «apagões» de popularidade que foram tendo ao longo da sua história como banda. De qualquer maneira, há que ressalvar o facto de que o que acabei de afirmar não tem nada a ver com falta de qualidade dos músicos que gravaram este Death Magic Doom. Há mesmo que fazer a devida vénia a Robert Lowe, o homem responsável pelas vocalizações, que tem um inegável talento natural. É um vocalista de heavy metal clássico e sem ele o novo disco da banda sueca não teria o som épico que tem. Robert Lowe foi, sem sombra de dúvidas, uma excelente escolha por parte de Lars Johansson - afinal haverá algo melhor para uma banda com um som épico do que ter um vocalista à moda antiga?
Apesar de todos os períodos menos bons da sua carreira, os Candlemass nunca saíram da linha que fora traçada no início. Uma das bandas mais importantes no desenvolvimento do doom metal, a banda nunca fugiu para sonoridades mais populares nos mercados ocidentais, algo a que nem todas as bandas suecas conseguem resistir.
Para bandas ou indivíduos interessados em conhecer algo mais sobre este género sem terem de recorrer a águas demasiado passadas, têm neste Death Magic Doom um bom manual do género. Afinal os Candlemass não perderam assim tanto a nível vocal ou instrumental desde o tempo de Epicus Doomicus Metallicus e este novo disco vem provar, em definitivo, que a banda de Estocolmo ainda tem algo para oferecer à música.
André Beda

A Análise: Rammstein - "Liebe Ist Für Alle Da"

Não poderíamos falar de 2009 no que toca ao rock e sonoridades similares sem referir o regresso dos Rammstein aos discos. Liebe Ist Für Alle Da chegou ás lojas cerca de 4 anos após o seu antecessor e desde logo se assumiu como um dos mais bem sucedidos regressos aos discos no ano que passou.
Em 2005 saía para o mercado Rosenrot, apenas um ano após o seu antecessor, Reise, Reise, numa clara tentativa de apanhar o balanço causado por este. A estratégia até poderia ser boa, mas a verdade é que saiu furada à banda de Till Lindermann e companhia que viu Rosenrot passar muito mais despercebido que o seu antecessor que, recorde-se, continha os polémicos e bem sucedidos singles "Amerika" e "Mein Teil". Após Rosenrot os Rammstein fizeram uma pausa e, consequentemente, o seu sucessor demorou mais algum tempo a sair. A resultante deste facto não poderia ser melhor: Liebe Ist Für Alle Da caiu que nem uma bomba nos mercados internacionais.
O sucesso do novo disco da banda alemã pode ser atribuído a diversos factores. Desde logo ao facto de Rammstein ser sinónimo de polémica e controvérsia. A banda continua a ser censurada em concertos pelo mundo fora, nas cadeias internacionais de venda de discos e de outras tantas formas. De forma a justificar o estatuto de uma das bandas mais polémicas do mundo, os Rammstein estrearam o videoclip do single "Pussy" num site pornográfico - afinal nenhum local seria mais apropriado para apresentar um videoclip com imagens dos elementos da banda em pleno acto sexual.
Não sejamos hipócritas: a controvérsia e a polémica vendem discos. É um facto irrefutável. Mas Liebe Is Für Alle Da tem vida para além da polémica. Não será de todo o que de melhor os Rammstein fizeram até hoje, mas é impossível ouvir este disco sem abanar a cabeça. Músicas como o tema que dá nome ao álbum, "Waidmanns Heil", "Rammlied" ou "Wiener Blut" estão, seguramente entre o lote de músicas mais pesadas algumas vez compostas pelos Rammstein. Como António Freitas um dia disse a propósito deste disco: "está uma grande malha, vale a pena ouvir!".
André Beda

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A Análise: Mastodon - "Crack The Skye"

No dia 24 de Março do ano passado saía para as lojas aquele que era considerado, por antecipação, um dos melhores discos do ano.
Sejamos directos: o alarido à volta deste Crack The Skye deve-se mais ao passado dos Mastodon do que propriamente ao seu novo disco. Desde a sua formação que a banda se conseguiu descolar do rótulo que tantas vezes lhe foi imposto, erradamente, de integrante da New Wave Of American Heavy Metal (movimento mais ligado ao metalcore e outros géneros que pouco têm a ver com o que os Mastodon hoje fazem). Os Mastodon sempre foram algo mais do que uma banda que vende bem e, como tal, com o que digo em cima não quero de forma alguma tirar mérito a Crack The Skye que é, sem dúvida, o melhor disco da banda.
Gozando do retorno à ribalta do sludge e dos seus sub-géneros adjacentes, a banda apresenta um som ainda mais progressivo, algo que se verifica bem em "The Czar", um épico tema com mais de dez minutos divididos em quatro andamentos distintos. "The Czar" e "The Last Baron", as mais longas de Crack The Skye, são mesmo as grandes novidades em termos de abordagem que os Mastodon apresentam em relação a outros discos. Depois há ainda os dois super-singles deste disco "Oblivion" e "Divinations", onde se torna notória a perda de peso quando os comparamos com outros singles do grupo como "Blood And Thunder" e "Colony Of Birchmen", mas se estes temas perdem em peso ganham claramente em potencial - afinal o videoclip de "Oblivion" está em rotação nos canais de música há quase um ano.
Já aqui referi que a sonoridade sludge metal está de volta à ribalta. De facto, está tão de volta que já não vemos apenas apreciadores de metal a ouvir bandas como Kylesa, Isis e Baroness. Na minha opinião os Mastodon são os grandes responsáveis pela re-massificação do género e este Crack The Skye foi mais um passo seguro dado no sentido da banda se tornar numa das maiores do mundo.
André Beda

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A Análise: Biffy Clyro - "Only Revolutions"

2009 foi o ano do lançamento do quinto disco de originais dos escoceses Biffy Clyro, o disco que poderá torná-los uma grande banda. Para já uma coisa é certa: energia para tal não lhes falta.
As primeiras peças de Only Revolutions começaram a ser lançadas em Agosto de 2008 através do single "Montains", nada de surpreendente para quem já conhecia a banda. Um ano depois do lançamento do single anteriormente referido sai "That Golden Rule" - o primeiro contacto que tive com os Biffy Clyro. Este single caiu que nem uma bomba no mercado e entrou em alta rotação nos canais de música, e não era para menos uma vez que se viria a descobrir que esta seria mesmo a melhor faixa de Only Revolutions. Foi "That Golden Rule" que me fez ir pesquisar mais acerca da banda, algo que me deixou ainda mais surpreendido uma vez que é algo radicalmente diferente do que os Biffy Clyro tinham feito até então. A agressividade demonstrada, quer na voz de Simon Neil, quer na instrumentalização com os já habituais arranjos orquestrais fazia desta música um épico instantâneo. O próximo passo seria o lançamento de "The Capitain", uma boa música mas num registo radicalmente diferente, o que fazia adivinhar que vinha aí um disco de altos contrastes.
Em Novembro dá-se o lançamento do disco, o que vinha confirmar a tese de que era um álbum com muitos altos e baixos. Aliás, a razão pela qual Only Revolutions está a ser dissecado neste momento deve-se apenas ao facto de os pontos altos do disco serem músicas enormes como: "That Golden Rule", "Bubbles" [com o ilustre Josh Homme], "Cloud Of Stink", "Born On A Horse" e "Know Your Quarry".
Há que dizer claramente que Only Revolutions não é um disco que um fã de rock mais tradicional vá gostar. Os Biffy Clyro são uma banda que faz essencialmente aquilo que hoje é conhecido por power pop, mas também capaz de fazer alguns grandes rasgos de verdadeiro rock absolutamente brilhantes.
Tal como se fazia adivinhar há muito este é o disco que vem puxar os Biffy Clyro para uma longa carreira internacional, algo que já se começa a sentir com a banda a fazer a primeira parte dos concertos dos Muse um pouco por todo o mundo.
André Beda

A Análise: Clutch - "Strange Cousins From The West"

2010 marca o regresso aos discos de um dos maiores fenómenos de popularidade vindo dos EUA. Strange Cousins From The West é o nono registo de originais dos Clutch, uma banda que já conta com 20 anos de carreira.
Apesar da longa carreira, os Clutch nunca foram uma banda de se ouvir na rádio ou de vender milhões de discos. Algo que não deixa de ser estranho se tivermos em conta que a banda já editou discos com o selo de grandes editoras. O trunfo deste fenómeno chamado Clutch é a sua base de fãs, que segue quase religiosamente a banda em cada concerto pelos Estados Unidos.
Muito mudou desde a génese da banda em termos de sonoridade. Os tempos de "The Soapmakers", o maior single editado pela banda de Neil Fallon e Tim Sult, já lá vai e os Clutch apresentam de disco para disco cada vez mais influências blues rock. Se a palavra de ordem há alguns anos era "agressividade", hoje é "groove". Como em tudo, existem aspectos que nunca mudaram, como as letras sarcásticas e por vezes a roçar o ridículo que a banda escreve.
Strange Cousins From The West foi apresentado pelo single "50,000 Unstoppable Watts", uma clara forma de os Clutch afirmarem que é esta a sonoridade da banda actualmente, o que pode até chocar fãs da sonoridade que demonstravam nos primeiros discos da carreira. Outras músicas altamente recomendáveis neste disco [bastante nivelado] são "Struck Down", "Minotaur" e "Freakonomics".
Os Clutch são, cada vez mais, uma banda de culto. Não que a sonoridade da banda seja inacessível a qualquer ouvido, mas a componente lírica faz com que ainda hajam muitos que não levem os Clutch a sério. Decerto que esse será um dos objectivos da banda: não ser levada demasiadamente a sério.
André Beda

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A Análise: The Horrors - "Primary Colours"

2009 foi o ano dos The Horrors. Se em Fevereiro passado me dissessem que a banda, senhora e dona de canções como "Sheena Is A Parasite", "Death At The Chapel", "Count In Fives" ou "She Is The New Thing", se iria virar para o shoegaze eu não acreditaria porque em 2007 a banda apresentava Strange House, que vivia do garage punk/rock com um toque sombrio.
Primary Colours é o que podemos chamar a "segunda estreia dos The Horrors", não se assumindo como um novo capítulo na sua carreira mas sim como um novo livro. Oiça-se a sua (verdadeira) estreia [Strange House, 2007] e compare-se com este segundo álbum, é surpreendente!
2009 marca, assim, o regresso de uma banda que adquiriu mais fãs pela sua estética e aparência visual do que pela própria música, o que, apesar de simpático, é surpreendente pois a sua estreia tem qualidade suficiente para se terem feito notar. "É a juventude de hoje..."...
É certo que esta mudança de ares permitiu à banda ganhar uma notoriedade que antes não tinham, tiveram mais vendas, mais elogios por parte de grandes nomes da música (Nine Inch Nails, por exemplo), mais fãs, mais olhos atentos à sua música, mais nomeações para prémios, mas muito do trabalho vem da visão do quinteto e da procura constante de novos sons [afirmaram há pouco tempo que o próximo álbum será virado para a synth pop...].
Rapidamente este novo disco dos The Horrors tornou-se num dos melhores de 2009. "Sea Within A Sea" foi escolhido para primeiro single e levantaram-se logo as bandeiras ao legado de bandas como The Jesus And Mary Chain ou My Bloody Valentine. Curioso será ainda o facto do director dos vídeos promocionais do primeiro e segundo singles deste disco, "Sea Within A Sea" e "Who Can Say" respectivamente, ser Douglas Hart, baixista dos Jesus And Mary Chain.
É claro que um fã de shoegaze se derrete-se a ouvir este disco. O saudosismo perante um género que conquistou muitos corações no final da década de 80 e no início da década de 90 é realçado num disco com "Three Decades", "Who Can Say", "Do You Remember", "I Only Think Of You", "I Can't Control Myself" e "Sea Within A Sea", com destaque na produção de Geoff Barrow, dos Portishead, Craig Silvey e Chris Cunningham.
Ao segundo álbum os The Horrors criam, ao mesmo tempo, um dos melhores de 2009 e uma ode ao shoegaze. Surpreenderam o mundo da música e prometem continuar a surpreender. Assim seja e assim continue.
Carlos Montês

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A Análise: Franz Ferdinand - "Tonight: Franz Ferdinand"

Esta primeira década do século XXI fica marcada no mundo da música, para além de outras coisas, pela súbita introdução de elementos electrónicos em muitas bandas que antes os dispensavam. Ao terceiro álbum os escoceses Franz Ferdinand não fogem à regra e apresentam Tonight: Franz Ferdinand.
Se há coisa que põe a tremer os puristas do rock essa é a introdução de elementos estranhos àquela banda que se quer só com voz, guitarra, baixo, bateria e, por vezes, piano. E introduzir sintetizadores e outras coisas mais à música tipicamente rockeira é suicídio musical para estas pessoas a que me refiro.
Mas voltemos ao essencial, que é a música...
A verdade é que a introdução de electrónica na música de algumas bandas as prejudicou muito, sendo o exemplo mais claro o dos Bloc Party que afugentaram alguns [muitos] fãs, mas que também adquiriam outros tantos... No entanto, com os Franz Ferdinand tudo não passou de um passo natural encarado com normalidade. Se os escoceses já tinham o rock mais dançável da década com hits como "Take Me Out", "This Fire", "Do You Want To" ou "The Fallen", entre tantos outros, juntemos uns sintetizadores russos e a diferença será mínima. E aí está o disco Tonight: Franz Ferdinand.
Se em Franz Ferdinand (2004) a banda se mostrava ao mundo com uma mão cheia de músicas rock com direcção à pista de dança, em You Could Have It So Much Better (2005) a ressaca desse rock direccionado à pista mostrava como estava a banda, saturada mas ainda com energia q.b., em Tonight: Franz Ferdinand temos a banda fresca e com uma nova cara, a barba que tinham apenas foi aparada.
Não desiludiram os fãs, porque "gostar de Franz Ferdinand é fixe", e trouxeram mais uns temas obrigatórios para incendiar o palco. Há rock, há guitarras, há electrónica, há riffs, há refrões, há corpos, há amor, há luz, há alegria, há tristeza, há sombras, há simplicidade, há complexidade e há Franz Ferdinand. E chega! Ponto final.
Carlos Montês

domingo, fevereiro 14, 2010

A Análise: White Lies - "To Lose My Life..."

Formados em 2007, os White Lies são mais uma banda que se juntou ao lote de bandas que revive o post-punk do final da década de 70 - Joy Division à cabeça. Tal como hoje os Editors e os Interpol vivem deste revivalismo, também os White Lies apareceram neste movimento para mostrar que o legado de Ian Curtis e companhia ainda vive. Quanto ao sucesso, rapidamente lhes bateu à porta.
Em 2008 o primeiro sinal saía cá para fora com o EP Unfinished Business, mas é em Janeiro de 2009, com o seu álbum de estreia editado - To Lose My Life... -, que os White Lies saem do anonimato.
A sua presença em vários países fez-se notar pelos tops um pouco por todo o mundo [destaque para o número 1 no Reino Unido] e, para além de alguns prémios, nomeações e os quatro singles que foram extraídos desta sua estreia, os White Lies foram acarinhados, desde logo, pelo público. No entanto, alguma inexperiência e inconsistência no seu trabalho tirou o entusiasmo a algumas publicações musicais pelo mundo fora, pelo que a divisão da imprensa musical foi notória.
To Lose My Life... mostra ao longo de dez músicas as influências tão britânicas do trio inglês. O post-punk é a sua matéria principal mas os White Lies fazem questão de viajar pela new wave e pela synthpop, juntado aqui e ali elementos electrónicos.
Qualquer que seja o futuro próximo dos White Lies, músicas como "Death", "To Lose My Life", "Farewell To The Fairground", "A Place To Hide" e "Fifty On Our Foreheads" fazem da estreia dos White Lies um dos discos que os fãs de post-punk devem descobrir. Uma coisa é certa: eles sabem fazer e escolher singles!
Carlos Montês

A Análise: Julian Plenti - "Julian Plenti Is... Skyscraper"

É no intervalo dos Interpol que Paul Banks, vocalista e guitarrista da banda, aproveita para se lançar a solo. Sobre o pseudónimo Julian Plenti o músico, que ajudou a por de novo o post-punk na moda, lançou o disco Julian Plenti Is... Skyscraper.
Este pequeno capricho de Paul Banks permitiu ao público em geral perceber de que fibra é feita o músico. Destaca-se desde logo o facto de músicas como "Fun That We Have", "Games For Days" ou "Fly As You Might" mostrarem que Banks não se consegue afastar totalmente do post-punk [revivalista] dos seus Interpol, não que isso seja de todo mau, afinal estas músicas matam saudades de um dos grupos que marcou esta primeira década do século XXI, mas a verdade é que o post-punk é a praia do músico e quanto a isso não há nada a fazer, ponto final.
Depois temos ainda outra faceta de Paul Banks, o seu lado mais romântico e calmo. Músicas mais intimistas, como seria de esperar de um álbum a solo de um músico que ficou conhecido por pertencer a uma banda. Há pianos inspirados em "Madrid Song" e "H" e há sentido acústico, orquestral e folk em "Skyscraper", "No Chance Survival", ou "Girl On The Sporting News".
Julian Plenti, o pseudónimo que Paul Banks utiliza para este álbum, revela ser o seu próprio eu e mostra-o como um músico que vive para lá do post-punk. Julian Plenti Is... Skyscraper é o disco que Banks precisava para voltar a encontrar-se consigo próprio, um disco que apesar de ter menos força que os Interpol tem mais coração do que a sua banda. Não era para menos.
Carlos Montês

terça-feira, fevereiro 02, 2010

A Análise: Muse - "The Resistance"

The Resistance foi um dos álbuns mais aguardados em 2009. Depois de em 2006 terem continuado a subir a escada do Olimpo, e de, em 2007, terem actuado no mítico Wembley Stadium, em Londres, aqui está o quinto álbum dos Muse.
Antes das gravações para este novo trabalho, Matthew Bellamy anunciou que os Muse iriam soar mais clássicos do que alguma vez foram e os fãs da banda tremeram. Depois do álbum lançado o que o vocalista da banda disse não passou de uma grande hipérbole.
Já no ano passado, em Julho, foi lançado para download "United States Of Eurasia" com a instrumental "Collateral Damage" e muitos fãs assustaram-se e chegaram mesmo a odiar este novo álbum, o que em parte deve-se à má escolha da música para download. É certo que um álbum não é feito só com uma ou duas músicas mas também não é menos verdade que este álbum é mais um que acrescenta valor na carreira dos Muse. Nunca chegam a soar tão clássicos como pareciam dizer e esta música é uma das que mostram muito as influências dos Queen.
A imprensa não teve duvidas quanto a este álbum e em uníssono aplaudiu The Resistance, um álbum épico e conceptual, à medida de Matthew Bellamy. Seguramente trunfos como a inovação, as orquestrações e o lado progressivo destes novos Muse foram peças fundamentais para que a imprensa musical não deixasse de parte este novo dos Muse. Afinal temos aqui grandes (e já obrigatórias) canções: "Uprising" - claramente a mais identificável com o material de álbuns anteriores; "Resistance" - uma nova abordagem à música dos Muse com Queen à cabeça; "Undisclosed Desires" - tendência do final da década, direcção: electrónica; "Guiding Light" - parece ser um lado B de "Starlight"; "Unnatural Selection" tem um início muito clássico mas rapidamente salta para o ambiente que os Muse viveram em álbuns anteriores e "MK Ultra" é Muse pré-The Resistance.
Este novo disco foi um dos mais intermitentes em listas de melhores de 2009 por parte da imprensa musical - muito se deve ao facto dos Muse serem uma das grandes bandas da actualidade e pela procura incansável das revistas e jornais especializados em mais e nova música -, mas os ouvintes chegaram a tempo de o incluir nas suas listas. É claramente um dos melhores de 2009 apesar de alguns, muitos poucos, acharem o contrário. Mas não serão estes que impedirão o enorme sucesso da banda nesta nova década.
Apesar da divisão entre os fãs e o público uma coisa parece ser certa: com tempo The Resistance irá afirmar-se como um dos melhores álbuns da carreira dos Muse.
Carlos Montês